quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O sexo e a cidade & a vida real

Talvez não seja muito à macho mas eu adorei o "Sexo e a cidade" (os matulões que me lêem por favor não comecem com provocações para eu não ser forçado a bater no meu peito como gorila alfa, qual Digit do "Gorilas na bruma"). Todas as temporadas, todos os episódios.

Claro que há partes que eu dispensava (até eu que sou a favor de mulheres bem arranjadas, com adereços de moda que façam sorrir as próprias e uma certa disciplina equilibrada na figura (só se vive uma vez e a depressão começa com pequenas coisas), sei que não preciso de conhecer assim tanto de sapatos Jimmy Choo (espero ter escrito bem)). Mas em geral gostei da série porque a primeira coisa que eu valorizo nas séries (e filmes) é o estar bem escrito. E a verdade é que "O sexo e a cidade" está uma série magistralmente escrita, com uma trama muito bem apanhada, cómica e sobretudo realista. Que coloca questões com que todos nos identificamos nalguma medida. Faz-nos até rir de nós próprios pelas caricaturas que desfilam à nossa frente.

Provavelmente todos conhecemos exemplos na vida real de Carries, Mirandas e Samantas. Mas de todas é o caso da Charlotte que eu vejo mais vezes repetir-se à minha frente.

Tenho uma grande amiga (apesar de passarmos largos períodos sem nos mantermos em contacto...normalmente coincidentes com cada um de nós estar numa relação...mas sempre que falamos somos de uma enorme sinceridade e cuidado um para o outro...o mundo é um lugar estranho) de há muitos anos que é uma mulher particularmente bonita e desejável. Loura, alta, magra, com estudos, boas famílias, muita grana, vivências em vários pontos do globo, inteligente e bom coração. E no entanto só escolhe idiotas em termos de homens para ter ao seu lado (incluindo, por um breve período, este que vos escreve, há muitos anos atrás e numa altura de grande sorte para mim (todos os rafeiros têm sorte)...hoje seria impensável). Está bom de ver que o preço de escolher idiotas são lágrimas, humilhações, embaraços. Como explicar às amigas e aos pais que o príncipe encantado merece afinal sentir o peso da gravidade sob a forma de um piano de cauda acidentalmente descaído de um nono andar? "Juro que foi acidente, sr. polícia mas olhe que por acaso até deu um belo Dó quando chegou lá abaixo".

O motivo, na minha opinião e pelo que tenho visto neste e noutros casos, é uma certa tentativa que muitas mulheres têm de ser demasiado exigentes quanto ao homem ideal (aliás, tentativa essa instigada por várias séries, filmes, blogs pink, etc para nem mencionar amigas, mães, cunhadas, colegas de trabalho ...tudo o que é bitch de serviço). Tem que ser mais alto, tem que ganhar mais dinheiro, tem que ter bom sentido de humor, tem que ser um vencedor crónico de concursos de popularidade quanto a pais, amigos & cachorro, tem que ter um bom carro, tem que ser arrumado, tem que ser asseado, tem que ter uma família civilizada e com uma ligação à mãe moderada, não pode ter demasiados sapatos, não pode beber demasiado, não pode ser muito gordo nem Júlio Isidro, tem que ser um leão na cama (e já agora depois do sexo, deve também fazer a cama e deixar tudo arrumado como estava), tem que ser ambicioso na carreira mas não demasiado, tem que ser competitivo com os namorados/maridos das amigas, tem que ter uma inteligência capaz de colocar um foguete na lua só utilizando clips n.º 5, etc. 

E este homem ideal existe ? Claro que existe, meninas. Se comprarem o jogo de computador Sims, podem fazer um gajo assim ao fim de 50 minutos. Ou então se beberem duas garrafas de tinto alentejano cada uma (14% por cento de graduação alcoólica...menos não vai dar), o príncipe ideal não só existe como até é levemente parecido com um homem das cavernas mas no sentido querido, claro (e o mau hálito e patilhas à lavrador até podem ser estranhamente afrodisíacos à hora errada da madrugada).

"Mas oh Pulha, muitos homens também são assim! Demasiado exigentes com as mulheres que querem ver ao seu lado...e depois dão-se mal... e ficam muito mal tratados porque essas são as mulheres mais disputadas no mercado da carne..." É absolutamente verdade. Mas há uma diferença: é que os homens continuam atractivos e sedutores para o sexo oposto durante largos anos e vejo muitas mulheres a perseguir homens que não existem/já arderam durante os melhores anos das suas vidas.

E o que se passa com a Charlotte na série? Bem, como quem viu sabe, a Charlotte é uma rapariga toda giraça que vai de idiota em idiota (qual tarzan de liana em liana) até esbarrar de frente com o príncipe ideal, o Troy, o qual apesar de romanticamente impotente tem muito dinheiro, vem de boas famílias e é apresentável. Claro que a trata mal como à merda (juro que ía dizer "cócó"...só espero que a minha avó não vá ler isto ...ah é verdade, nunca lhe disse que tinha um blog...) e por isso o breve casamento acaba na ruína. Pobre Charlotte, vê o seu sonho desfeito mas - é uma das coisas boas das séries americanas - ainda vai a tempo de ter um final feliz quando o seu destino se cruza com o de um horroroso ogre gordo, um careca que come de boca aberta e tem mais pelos nas costas do que uma cavalariça no chão, mas que voilá a trata como merece (e é um Shrek na cama). E são felizes. E criam uma família. E como diria o Bonga "tenhu uma lágrime no cantu du ólu/ tenhu uma lágrime no cantu du ólu".


Este post não tem uma conclusão científica estilo "eh malta, bora lá procurar os mais feios e dar-lhes programas para Sábado à noite...a fealdade é que é o caminho!". Digo aos meus amigos o mesmo que às minhas amigas: procurem os giros, os estimulantes, os que vos realizem. Mas na dúvida apostem naqueles que vocês achem que vos farão felizes a 10/20 anos (mais é especulativo), que tratam bem já hoje todos os que estão à sua volta e que se sentem verdadeiramente satisfeitos quando acordam ao vosso lado. Aqueles que fazem materialmente sentido, e não aqueles que fazem formalmente sentido. E claro, um bocadinho de sorte e sacrifício da vossa parte.




Ps:

Não parece mesmo que estão a pensar "Olha, lá vai o Pulha" ?

17 comentários:

Angelo disse...

Confessa lá que te estavas a passear pela 5th abaixo!

Belíssimo texto, Pulha. Belíssimo!

Anónimo disse...

Caro Pulha,
Machos não sei o que são... mas os homens, aqueles homens que nós, mulheres, procuramos e com os quais sonhamos SÓ podem gostar do Sexo e da Cidade.
Os homens até que não são muito bem tratados, é verdade, não são o centro das atenções, não cheira a testosterona (felizmente) e até são muitas vezes formatados...
Mas é fascinante...
Fala sobre mulheres, capta-as muito bem, com as suas fraquezas, idiossincrasias, medos, angústias, desejos, maternidade (a relação da Miranda com a maternidade é tão verdade que até dói), etc. e tal.
E é sobre relações, e sobre a procura DA RELAÇÃO: aquela que é perfeita enquanto durar, e que ninguém se atreva a pensar que não vai durar!
E depois o SEXO tem de ser bom, mas a INTIMIDADE E A PARTILHA têm de lá estar de pedra e cal (até mesmo Samantha se rende, porra!).
E as mulheres são tão complexas e fascinantes, que algumas (entre as quais me incluo) têm nelas um bocadinho de cada uma destas personagens.
Olha, e quanto à sorte e sacrifício, são palavras demasiado fortes, não são?
Mais vale não pensar muito no assunto e deixar andar...
P.S. Não digo só belíssimo texto, mas também belíssima sensibilidade.
(E agradeço à Cinemateca, do Salustio, ter-me feito chegar até aqui!)
Anónima

Anónimo disse...

Só te quero dizer meu querido amigo que já conhecia a música do Eddie e que é uma das minhas preferidas. Sabes pq é que andas com essa música ás voltas dentro de ti?
Porque é a verdade dita da forma mais simples e sublime que existe. Nas palavras de um dos maiores interpretres musicais das últimas décadas.
Saudações de Glória

kitty disse...

COncordo em tudo. E é isso que aprendo da personagem Charlotte. No sue 1º casamento, tinha a vida ideal com que todas sonham: o médico cirurgião, vindo de boas famílias, a casa situada numa das melhores zonas da cidade, mas com tudo isso veio também a infelicidade. No 2º casamento o ogre do Harry fê-la feliz, não importando tudo o resto era ele que a fazia feliz.
E a verdade é mesmo essa, por vezes procuramos o ideal que sempre esteve na nossa cabeça, mas depois acabamos com alguém que não preenche nenhum desses requisitos mas é quem nos faz feliz.

Apple disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Apple disse...

Gostei bastante deste texto (tal como gosto da série) e concordo com o teu remate, no sentido de apostarmos em quem nos faz feliz, com quem é bom amanhecer depois de uma noite bem passada, com quem nos faz rir e pensar, mesmo que formalmente não seja nada do que tínhamos formatado na nossa cabeça ou no nosso círculo/circo habitual. Faz-nos pensar, este teu texto, na capacidade que temos de ter para fazermos ajustes à navegação e sabermos reconhecer que a felicidade, a intimidade, a partilha, no fundo o que ambicionamos, pode muito bem estar onde, à partida, não julgaríamos provável.

Teresa disse...

Pulha... estás a ficar um gajo romântico???? ehehehehe!

Sabes, eu acho que uma das coisas mais fascinantes do amor é traduzida pelo ditado "Quem feio ama, bonito lhe parece"!!!!

É que enquanto não estamos apaixonados, traçamos um objectivo com mil e uma condicionantes relacionadas com a nossa noção de perfeição.

Pois é... mas depois, as feromonas atacam! E o corpo de Adónis, o fato Armani, a casa na praia, o Porsche à porta... tudo passa para segundo plano! São as feromonas!!!

Beijinhos,
T

francis disse...

eu também curtia ver o sexo e a cidade. tenho dito.

Peter of Pan disse...

Eu sou macho, mas também via o Sexo e a Cidade. E gostava (refiro-me apenas à série, o filme é uma m... um cocó!).

Dylan disse...

Pulha,
Não fales mal do Troy. Desde os tempos do Twin Peaks, onde ele era o meu actor favorito, que não encontrava personagem tão marcante na sua carreira.

Um texto interessante e bastante actual. Também conheço algumas Charlottes...

R.L. disse...

Tens jeito para a coisa. De facto, acho que essa questão de deixar de ser tão exigente e de aprendermos a gostar (ou a dar oportunidade) de quem gosta de nós é uma questão de maturidade. De todas, embora a mais tímida, a mais caladinha, a que mais procurava um tipo de homem que não existe, foi aquela que melhor escolha fez. Nem era um Miranda que teve de aprender a gostar a sério do que tinha e a ser feliz, nem era uma Carrie que bateu com a cabeça inúmeras vezes e que vai ficar com um homem, que a meu ver, se isto fosse real, a tratava mal de novo, nem é uma Samanta que só gosta dela.
Vejo, pelas minhas amigas, que continuam incansavelmente à espera que lhes apareça um Mt.Big pelo qual estarão dipostas a bater com a cabeça na parede vezes sem conta, mas que no fim tudo dará bem. Eu não acredito muito nisto, nestes amores sofridos, parecidos com montanhas russas, acredito que gostar de quem gosta de nós e nos trata bem, é uma questão de inteligência e amor-próprio. Não digo para as pessoas andarem com gente assim só porque sim, mas sabes, muitas mulheres nem se dão a oportunidade de verificar se aquilo que existe não será mais do que parece, só porque ele não é o homem que idealizaram.

Maria Manuela disse...

"e já agora depois do sexo, deve também fazer a cama e deixar tudo arrumado como estava"

Ah ah ah

Impagável!

Pronúncia disse...

Não perdia um episódio, adorei a série e agora volta e meia revejo um ou outro episódio.

O texto está lindo, as conclusões brilhantes, só tem um pequeno erro... os sapatos preferidos das meninas eram "Manolo Blahnik"! ;)

Cate disse...

Adorei o texto.
Não podia concordar mais.

Princesa (des)Encantada disse...

É, de facto, uma excelente série de que também gostei imenso e, como dizes, bastante realista. As personagens são caricaturas perfeitas. Acho que quase todas as mulheres se reconhecem nalguma delas em particular, mas provavelmente a maioria terá um bocadinho de várias.
Quanto ao caso específico das Charlottes, escolher idiotas é a coisa mais normal do mundo, até porque as outras também os escolhem. A diferença é que as Charlottes apaixonam-se mesmo, não os põem a andar com a mesma facilidade, investem mais e, por isso, sofrem mais depois. Não concordo que as mulheres escolham idiotas por serem demasiado exigentes. Pelo contrário – escolhemos idiotas porque por maior e mais exigente que seja a lista de requisitos, no fim a escolha é basicamente intuitiva, às vezes precisamente pelo desvio da lista. Quase todas as mulheres apaixonadas te dirão que a pessoa escolhida não tem quase nada da lista teórica. Somos mais tortuosas connosco próprias do que com os homens...
Também não concordo que só as mulheres persigam “homens que já arderam/não existem”. Os homens também o fazem, só que, no meio tempo, “entretêm-se” com outras mulheres.
A conclusão do texto é fantástica. Mais um excelente texto sem dúvida. E a música acompanha o nível.

ariana luna disse...

Pulha,
No teu íntimo (lá dentro, no lugar mais recôndito) és um romântico inveterado que ainda quer continuar a acreditar no amor.

[Queres tu e quero eu.]

Pulha Garcia disse...

Caro Angelo,

são pessoas como tu que fazem o texto bom.

Cara Anónima,

"E as mulheres são tão complexas e fascinantes, que algumas (entre as quais me incluo) têm nelas um bocadinho de cada uma destas personagens." talvez mas na maioria dos casos é muito mais apenas uma das personagens.

Obrigado pela visita.

Caro Saudações de Glória,

Bem sei que adoras o Eddie. E bem. Só demonstra o quanto percebes de música.

Gde Abc

Cara Kitty,

"por vezes procuramos o ideal que sempre esteve na nossa cabeça, mas depois acabamos com alguém que não preenche nenhum desses requisitos mas é quem nos faz feliz." right on. Oxalá sejas feliz.

Cara Apple,

"Faz-nos pensar, este teu texto, na capacidade que temos de ter para fazermos ajustes à navegação" de facto também é necessário coragem para revermos as nossas próprias opiniões. Pode vir a fazer toda a diferença.

Cara Teresa,

Percebo a ideia do ""Quem feio ama, bonito lhe parece"" mas nunca concordei. Quem ama alguém sabe (e não é a mesma coisa de "parece-lhe" ) que aquela é a pessoa mais bonita do mundo.

Caro Francis,

Claro que sim. Com tanta gaja boa "qual é o pai que não chora?"...

Caro Peter of Pan,

de facto o filme é uma desgraça comparado com a série.

Caro Dylan,

Twin Peaks...que grande série...Quanto ao Troy pois ... o artista é um bom artista ...

Caro R.L.,

De facto a maturidade é muito importante na questão de escolhermos quem amar. E a maturidade só vem com algumas decisões erradas...

"muitas mulheres nem se dão a oportunidade de verificar se aquilo que existe não será mais do que parece, só porque ele não é o homem que idealizaram." comentário muito inteligente. Muitas vezes a pessoa que mais nos faz feliz é aquela que esteve ali sempre e a quem não demos "chance"...

Cara Maria Manuel,

just learning from the best...

Cara Pronúncia,

" só tem um pequeno erro... os sapatos preferidos das meninas eram "Manolo Blahnik"" de facto, escapou-me esse pormenor...estamos sempre a aprender...

Cara Cate,

obrigado pela visita.

Cara Princesa,

"A diferença é que as Charlottes apaixonam-se mesmo, não os põem a andar com a mesma facilidade, investem mais e, por isso, sofrem mais depois." concordo.

"escolhemos idiotas porque por maior e mais exigente que seja a lista de requisitos, no fim a escolha é basicamente intuitiva, às vezes precisamente pelo desvio da lista." discordo... a maior parte das mulheres é bastante racional no momento de se dedicar a um homem. Sobretudo quando é bonita e desejável e tem muito por onde escolher.

Obrigado pela tua simpatia final. O que faz um blog bom ou mau é a malta que o visita e tu em particular, valorizas o tasco a ponto de nos elevares contigo a realeza!

Cara Ariana,

nunca deixei de acreditar no amor. Apenas acho uma guerra difícil. As pessoas de quem mais gostamos neste mundo são aquelas que nos dão as maiores alegrias e aquelas que nos infligem as maiores tristezas...

Oxalá sejas feliz.